A Chegada nos Lençois

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Category : Diário

06/04/2010 – Na noite anterior foi muito difícil dormir bem, o tempo de sono era equivalente ao tempo em que as cascas de coco levavam para queimar – essa é uma técnica que aprendi com o pessoal da casa, a queima dos cocos servem de espanta mosquitos, você deve pega alguns cocos secos abre eles e os queima, a fumaça é bem densa e ajuda muito para espantar os mosquitos, no entanto de hora em hora você tem colocar novos cocos, caso estiver dormindo em rede, ou então utilizá-los para montar a barraca e enquanto faz outros serviços ao ar livre, esse artifício vai te proteger bem.

Noite mal dormida conseqüentemente acordamos muito cedo e não tínhamos um pingo de comida para o café da manhã, a manhã será longa e com fome, visto que não tinha nada por perto. Por sorte fomos convidados para tomar um cafezinho e comer umas bolachas, pelo menos de barriga vazia não sairíamos. Essas atitudes nos fazem refletir sobre coisas admiráveis, as pessoas que menos tem são as que mais oferecem e dão, a solidariedade delas são memoráveis, com um coração acolhedor e sempre dispostos a ajudar no que tiver ao seu alcance.

 

Nos despedimos e seguimos, de volta onde paramos, empurrando a bicicleta, só conseguimos pedalar mesmo, após uma hora, ainda sim em velocidade baixa e pulando aos montes por conta do terreno irregular – estávamos em um descampado com um mato rasteiro – com uma fauna bem densa de cabras e bois – à esquerda pequenas dunas, o tal pequenos lençóis e a direita percebíamos que estávamos próximo a praia, já dava para sentir a maresia pelo ar – chegamos ao final do tal campo, separado por uma baixa duna de areia onde iniciava-se uma extensa faixa de areia, bem parecido com região de mangue, que levava em direção ao mar, percebi na hora que iria ter mais empurra empurra, essa areia era frouxa e não suportava o peso da bicicleta, afundando as rodas.

Foi muito perrengue até chegar a praia, a intensidade do sol aumentava cada vez mais, conseqüentemente o calor e a fome iam também aparecendo agravando o cansaço do corpo. Pedalar na areia também não foi um dos trechos mais fáceis, a maré estava enchendo, logo, a faixa de terra ciclável diminuía cada vez mais, sobrando uma areia meio mole que pesava muito a cada pedalada.

Nosso destino era chegar em caburé, ficava a 30km de distância, quando chegou nos 20km, meu corpo já estava destruído, em muito momentos tive que empurrar a bicicleta, que com bastante peso não facilitava nenhum pouco – eu tinha muita fome, provocando um aumento das más condições de conforto, estava irritado, nervoso e parecia que não chegava nunca, cada quilometro era longo e muito sofrido.

Faltando menos de 5km, com a maré quase cheia avistamos a praia de caburé, foi como uma miragem, finalmente poderia pedir um belo de um prato de comida, tomar uma água de coco e descansar, aquela foi a visão do paraíso e de uma conquista física e psicológica.

A praia de Caburé faz parte da rotas dos lençóis maranhenses, conta com um passeio de barco pelo rio preguiça, passando pela antiga cidade de Travosa – ela fica situada em uma faixa de terra entre rio e mar, bela para se observar as gaivotas sobrevoando o rio em busca de alimento, tomar um banho de rio ou mar com bastante tranqüilidade. Possui 3 ou 4 restaurantes a beira rio onde paguei em um PF muito bem servido R$ 10,00.

Depois de comer, dormir, descansar, tomar banho de rio é chegada a hora de ir embora. Segui a dica de uma amiga sobre uma cidade que vou chamar de lençóis mesmo, para sua proteção, pegamos um barco que custou R$ 40,00, achei um absurdo de caro e foi o mais barato que conseguimos. Já era final de tarde, saímos a procura de um lugar para ficar e enquanto eu negociava com uma tiazinha sobre o preço da pousada, Argus conheceu Dadinho, antigo morador de Jericoacoara e amigo de bons amigos meus, ele então nos ofereceu um espaço que poderíamos armar nossas redes e ficar uns dias, perfeito agora é só descansar.

Caminho dos Lençois Dia 3

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Category : Diário

05/04/2010 – No dia anterior dormimos em uma pousada pouco antes de Tutóia – bem simples e de boa dormida, nós conseguimos negociar um jantar e um café da manhã, e apesar de ter feito sem toda aquela boa vontade, estava gostoso – dormimos os três, eu, Argus e Leandro em um mesmo quarto para baratear o custo que ficou ao final, somado as refeições, R$ 50,00.

Arrumamos as bicicletas e seguimos para Tutóia, de lá pegaríamos finalmente a praia para ir até os lençóis maranhenses, pedalar pela praia é sempre muito bom, escutar o pneu atritando com a areia, o canto das ondas do mar, observar o vôo dos pássaros, os pescadores recolhendo suas redes de sustento – viver sem o mar é também para mim uma da tarefa muito difícil, e sabia agora que depois do maranhão os trechos de praia iriam acabar.

Chegamos em Tutóia e, bem vindo ao Caos – a cidade é ponto de acesso aos lençóis maranhenses, daqui saem todos os dias vários carros Toyota 4×4 a caminho do parque provocando todo o tumulto e o imenso cheiro de óleo diesel na praça principal, onde eles ficam estacionados – eu não tenho nada contra o turismo, mas isso é uma conseqüência dele acompanhado da falta de políticas de controle, ainda mais agravante por ser no estado do Maranhão.

Turismo Predatório

Certa vez estava lendo o livro Pelos Caminhos de Nuestra América de Rafael Limaverde, e em uma passagem ele conta sobre um determinado passeio turístico e a invasão que provoca-se ao chegar às pequenas comunidades, as pessoas vão sacando todas as câmeras fotográficas, invadindo a privacidade dos nativos, sem dar ao menos um oi, e eles ainda tem que tolerar essas atitudes que já são rotineiras, de centenas de pessoas que passam por ali todos os dias, todos os anos.

Isso me fez pensar bastante sobre como aquela cidade foi transformada, movimentou e ainda movimenta muito dinheiro, portanto continua com baixa infraestrutura urbana. Para reverter esse quadro é de extrema importância que todas as ações sejam planejadas e que o turismo seja equitativo ao aumento da qualidade de vida da população, nós fazemos parte disso, hoje vemos inúmeras agências com o prefixo Eco em seus nomes, mas de fato quais que realmente fazem valer seu nome e que merecem nosso dinheiro?

Pedalar pela Praia

Meio agoniado a todo aquele barulho paramos somente para comprar umas bananas (R$ 2,00) e esperar Leandro consultar na rodoviária o horário do ônibus de volta para Parnaíba, era nossa despedida, depois de partilhar bons momentos e troca de experiências. Seguimos para a praia, ao contrário da cidade, é linda e por ser dia de semana estava muito tranqüila – preparativos para mudança de terreno: passar bastante protetor solar, trocar o capacete pelo chapéu, o tênis pelo chinelo e hidratação com uma bela água de coco (R$ 1,50) – Já passam das 10:00 AM, nos despedimos de Leandro e seguimos.

Voltar a pedalar pela praia é uma sensação ótima, só curtição, a paisagem já é outra, com um horizonte de dunas, os chamados pequenos lençóis, barracões de pescadores a beira mar. Após duas horas de pedalada chegamos o um memorial de raízes de mangue – parecem brotar da areia da praia, cada uma delas com sua identidade de forma, é um infinito delas, a imagem se perde meio ao horizonte, difícil dizer quando se acabará, entramos em outra dimensão, essa talvez seja a palavra que se enquadra, da surrealidade da presente paisagem – o tempo e a imaginação se perde meio ao resquício de mangue.

Paulino Neves

Chegamos no rio, de longe avisto um barco, vou correndo com a bandeira do Brasil fixada a uma haste de bambu acenando para eles, me passou logo pela cabeça, se não conseguimos atravessar agora, vamos ficar plantados aqui um bom tempo esperando outra oportunidade, esse é um dos imprevistos de se viajar pela praia, os constantes rios que deságuam no mar. Um certeza existe, onde tem rio, tem pescador, a dica é levar alguns pistolões (fogos de artifício) para sinalizar a chegada a margem e esperar alguém vir buscar, porém nesse caso nós não o tínhamos, contávamos com a sorte e felizmente ela estava do nosso lado, ufa!

   

No barco estava o Sr. Alfredo, dono do barco e pescador toda vida, com seus dois amigos que ajudam na pescaria, que no dia rendeu um cardume de arraias. Agora era só relaxar, curtir a paisagem do rio e o barco a andar com a força do vento. Chegamos a um povoado chamado Paulino Neves e Alfredo nos convidou para almoçar, compramos umas cervejinhas como forma de agradecimento e também para dar de presente do que para nós em si. Em seguida ficamos lá descansando na rede e contemplando a beleza da localização da casa do Sr. Alfredo, na beira do rio, com plantação de frutas e hortaliças, sem estrada e tampouco movimento de automóveis, somente pessoas na vila, um lugar perfeito e muito tranquilo.

Cogitamos em dormir por lá mesmo, mas achamos melhor seguir, ainda tinha muito dia pela frente, ao menos foi essa a intenção, logo que saímos da casa de Alfredo um areal, que nos levou a empurrar a bicicleta, segundo informações que nos fora dada, a praia estava a 3km, ou seja, pertinho, mas novamente caímos na informação da falta de noção – pegue os 3km e multiplique por 4 ou 5, some a uma escolha de caminho errado e bufo, acabou o dia, felizmente paramos em um lugar com uma simpática casa no meio do nada com pessoas que nos permitiram armar nossas redes em um palheiro no quintal da casa.

Para o jantar fui catando tudo o que eu tinha na bagagem, eu estava desacostumado a comprar comida por que ultimamente não estava sendo necessário, para felicidade acabei encontrando umas granolas, mel, leite em pó, farinha láctea e deu para fazer aquela mistura e enganar a fome até o dia seguinte, rs.

Agradecimentos a Leandro pela boa companhia e ótimo suporte em Parnaíba e em Cana Brava, agradeço também ao Sr. Alfredo e família pelo apoio.

Ah, não esquece de deixar o seu comentário é muito interessante saber sua opinião.

Album Digital Dia 3