Lençóis do Perrengue

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Category : Diário

17/04/2010 – Depois de 5 dias na cidade lençóis, chegada a hora de ir embora, o plano – cruzar  todo os Lençóis pela praia com parada para ir na queimada dos brito, um oásis que tem no meio do parque – uma emoção tamanha me contagiava, primeiro pelo desafio que seria cruzar uma área bem isolada e outra pela beleza e energia que aquele lugar possui.

Como toda condição dos trechos de praia, saímos com a maré seca, despedimos dos novos amigos, Sergio, Marlies e Melanie. “Simbora que temo hora”, no início pedalar foi impossível, a areia era muito fofa, não restando outra alternativa, além de, sebo nas canelas, força nos braços e empurra a bicicleta – à quase uma semana atrás eu também estava empurrando Carmélia, e agora outra vez, esse negócio esta ficando cansativo – pensei.

Depois de 4 quilômetros nesse lenga lenga, pensamos em cortar caminho, estávamos em um ponto que percebíamos que próximo, uns 2 km no máximo, estava a areia da praia, dura como um asfalto, com um vento a favor que iria nos empurrar e a pedalada seria fácil e prazerosa, naquela hora, era só isso que me passava pela cabeça, ao menos, até o momento em que minha bicicleta começou a afundar um palmo na areia – a região que estava é de mangal, meio alagadiça e com uma areia de baixa densidade e compactação, por esses fatores, somado ao peso da minha bicicleta, mais um pneu relativamente fino me levou do paraíso a uma verdadeira luta psicológica e física.

De uma velocidade média de 18 km/h, durante a maior parte da viagem até aqui, despenquei pra uma de no máximo 1,5 km/h, estava mais lento do que o bicho preguiça quando acaba de acordar. Caminhar aqui é muito difícil e para animar ainda mais a festa, tinha que desatolar 65 kg a cada passo que dava e agüentar um sol de sei lá quantos graus no lombo, pensamentos bons eram os únicos que não tinha, além disso, se aproximava do meio dia e já estava quase sem água, não tínhamos comida e a fome aumentava ainda mais.

 

O trajeto total é de pouco mais de 70 km, em condições pedaláveis, levaria em trono de 4 horas, porém em 3 horas fizemos somente 6,5 km. Contudo, felizmente havia acabado o atoleiro, era permitido pedalar, ao menos um pouco, até chegar em um rio que fez acabar com toda felicidade novamente, foi necessário retirar toda a bagagem da bicicleta para fazer a travessia, já era a terceira vez q fazia isso, estava cansado, com fome, cansado, queria sombra, água fresca e um prato de comida, coisas que estavam muito longe do meu alcance, somente com tele transporte, porém, ainda não inventaram essa tecnologia, que pena. =(

Chegamos aos 10 km, a areia da praia começava a ficar fofa, a aparecer uma série de pedras na praia, maré a encher, água ficar escassa e comida passava longe de ter, tínhamos somente um mamão, que em uma pausa para decisões traçamos parte dele e tomamos uma medida radical, abortamos o plano de cruzar os lençóis, era a coisa mais prudente a se fazer, nós tínhamos sérias limitações e muito menos sabíamos o que havia pela frente, poderíamos nos dar muito mal nessa história. Paramos pouco antes dali, em uma cabana de pescador para descansar e esperar a maré baixar, enquanto isso, Argus prepara o almoço, receita – farinha, um resto de mamão e mel, a pior comida da minha vida! Só consegui comer o mamão.

No final de tarde começamos o retorno, já anoitecendo encontramos dois garotos carregando umas coisas em cima do burrinho e perguntamos onde teria um apoio para ficar a noite, fomos informados que havia uma vila de pescadores com apoio e restaurante, soubemos também que de onde paramos mais a frente é bastante remoto e que tínhamos tomado a decisão certa. Chegamos na tal vila, comida, era só o que me passava pela cabeça, eu estava faminto.

Paro e me coloco na situação de pessoas que ficam dias sem comer, como é que agüentam, eu em um dia nessa condição me senti em uma verdadeira tortura, principalmente mental, poderia enlouquecer de fome fácil. Dentro desse contexto reflito sobre nosso sistema, do consumo, o capitalista, que determina que para comer você precisa trocar alimentos por um tal papel com uns números impressos, chamados de dinheiro, ou então, se não tiver as condições para tal sistema e mesmo assim quiser comer, deverá catar a comida nos lixos e/ou lixões que aqueles que detém o tal dinheiro, jogam alimentos fora pois o consideram impróprios para o consumo.

Por isso, reflita ao deixar comida no prato, isso se chama desperdício, evite-o, tem muita gente no mundo que incompreensivelmente ainda passa fome, pelo nosso sistema brutal e desumano. A partir disso, aproveito a temática para recomendar um curta metragem brasileiro, chamado Ilha das flores, produzido em 1989, por Jorge Furtado. Assista na íntegra logo abaixo, no Google vídeos ou pelo Youtube em duas partes, parte 1, parte 2.