Gigante Amazônia

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Amazônia, uma palavra que quando se ouve perdem-se as proporções de dimensão e que faz tremer as pernas de emoção e ansiedade, será meu próximo desafio, de Manaus a Boa Vista, pedalar 784 km pela BR 174, um trecho em que ficarei mais tempo na estrada desde que saí do nordeste e com um detalhe, por conta própria e em meio a gigante floresta, a estrada que liga os estados do Amazonas e Roraima tem baixa densidade demográfica existindo somente pequenas cidades já próximo de Boa Vista.

Tendo os estudos do trajeto, a preparação, alimentação reforçada para que não se passasse necessidade de qualquer apoio, por conta disso, mais peso e mais carregada ficará a bicicleta, em torno de 6 kg ainda somado aos 6 litros de água, é extremamente importante levar água suficiente para 2 dias caso algum imprevisto venha ocorrer na estrada e seja necessário fazer um camping selvagem, no final a bicicleta deve ficar com 70 kg. O plano de pedal são de 7 dias, fazendo uma média de 115 km com as paradas em locais estratégicos.

Parada para almoçoSegunda-feira, 19 de julho, manhã de frio, atípica para a capital amazonense, uma frente fria incomum havia passado por todo o Brasil no final de semana anterior, provocando inusitadas baixas nas temperaturas de regiões quentes. Foi assim que sai de Manaus, com um fina garoa que caia das nuvens cinzas que pairavam sob o céu, uma tarefa difícil, o clima feio ao lado do enorme trânsito da capital indústria dificultou muito a vida, o barulho ensurdecedor dos carros, ônibus e caminhões, a poeira que é levantada, a fumaça carregada de CO2 e a baixa visibilidade aumentavam condicionalmente o nível de stress, eu corria para tentar entrar no ritmo dos automóveis e sair logo daquele caos.

Vestido com os óculos escuros para proteger os olhos da sujeira, enxergava pouco, ainda mais difícil pelas gotas de água que agarravam a lente. Em uma tentativa de limpeza e pedalando ao mesmo tempo, perco o equilíbrio da bicicleta quando a roda dianteira entra no desnível da sarjeta – em meio a chuva o asfalto estava com uma fina camada de água tornando-o escorregadio, o pneu fino da bicicleta não permite o atrito necessário, a minha falta de atenção e talvez irresponsabilidade me fazem levar a primeira queda de todos os 10 meses de viagem, apesar da forte pancada nas costelas, felizmente não foi nada grave, alguns minutos para refletir e volto o pedal, a única coisa que me passava na cabeça era sair daquele trânsito e poder respirar o verdadeiro ar amazônico.

25 quilômetros de sofrimento e respirando CO2, finalmente podia pedalar em paz, era o início da BR 174 – a Amazônia que tanto esperava, na paisagem árvores que ascendem aos céus tentando tocá-lo, com uma mistura de tonalidades de verde que define cada espécie – uma fina neblina compunha a copa das árvores e apesar da alta umidade no primeiro dia de pedalada estava com um clima muito agradável.


Pedalar no Amazonas é um verdadeiro encontro com os animais silvestres, especialmente pássaros das mais variadas cores, brilhos, formas e finos cantos, vão de andorinhas, tucanos, araras, gaviões, sejam eles pequenos, médios e/ou grandes, dominando os céus amazônicos, observando tudo de cima, eu os invejo, voar é para mim a maior sensação de liberdade, assistir tudo do alto, sentindo a brisa no rosto e corpo, plainando com toda a suavidade e destreza – viajar de bicicleta é como voar baixo, sentir os espaços a sua volta, perceber cada detalhe, seus cheiros e energia do local, integrando-se ao meio como um só organismo, silenciosamente, denunciado apenar pelo burburinho do pneu atritando no asfalto – a emoção toma conta do corpo, a endorfina que chega ao cérebro provoca sensações de intenso prazer, é uma droga que vicia.

O primeiro dia de pedalada é um longo tobogã, subindo e descendo, as ladeiras estão presentes por todo o caminho, um trecho que exige muito controle psicológico, não pode ter pressa, especialmente nas subidas onde a velocidade cai bruscamente e demanda mais energia do corpo, trabalhar com alto giro da marcha leve algumas vezes da a sensação de não sair do lugar – cada ladeira se transforma em uma conquista, a vista privilegiada do alto permitindo ver o horizonte e o caminho que nos guia, a descida merecida observando o entorno e respirando cadenciadamente para recuperar o fôlego e se preparar para mais uma subida.

A BR 174 não tem acostamento, portanto a segunda-feira de baixo movimento da tranqüilidade a pedalada com exceção das caçambas e automóveis particulares que andam em velocidades desumanas e transpõe um certo medo – o barulho com que eles passam é ensurdecedor e meio ao silêncio da floresta e o cantar dos pássaros.

O primeiro dia chegou ao fim com uma paisagem de grande nevoeiro presente na mata, com o verde esbranquiçado pela alta neblina – cidade das cachoeiras, Presidente Figueiredo, foram longos 136 km com muita subida, no GPS somaram 1500m de ascensão, me rendeu um início de dor no joelho até então nunca existente – Parada obrigatória por uns dias para conhecer as belezas da pequenina e simpática cidade, Cachoeira 4 Elementos, Santuário, Iracema, Natal, bóia cross, flutuação no rio e tree climbing foram os combustíveis para continuar a viagem, o contato com a natureza se tornava cada vez maior, agora sim estava definitivamente na Amazônia e posso sentir a sua magia que encanta os olhos de muitos estrangeiros que a conhecem, quando fala-se em Brasil é difícil não associar a essa gigante.

Uma metrópole no Amazonas

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04/05/2010 – 19/07/2010 – Cheguei em Manaus em plena semana do meio ambiente, as discussões sobre sustentabilidade estavam a tona, mas de fato o que nós e o governo estamos fazendo para reverter os atuais panoramas? Falar em sustentabilidade não deve ser considerada somente nas dimensões MEGA, mas também na MICRO, nas pequenas atitudes do dia a dia, que interferem significativamente no meio ambiente, água, lixo, energia, transporte, alimentação, consumo estão ao nosso alcance de forma bastante simples, porém por comodismo ou talvez preguiça, não tomamos partido para nada, uma atitude um tanto egoísta que deixa o problema para gerações futuras, nossos filhos, netos, bis netos e adiante – Falamos em salvar o planeta, uma frase, em minha opinião, equivocada, o planeta ficará onde está, já a raça humana? Quem garante?

Manaus apesar de estar no centro da Amazônia teve toda sua flora dizimada e a fauna afugentada, é uma selva de pedra no meio da floresta, uma metrópole que produz grande parte dos bens de consumo do Brasil, por outro lado, não produz quase nada quando se fala em frutas ou alimentos, com exceção apenas às pertencentes da região, no mais, é quase tudo importado.

História

A história de Manaus inicia-se entre os anos de 1580 a 1640 com a exploração pelos portugueses no chamado vale amazônico, com eles vieram também a destruição da cultura local e escravização indígena. Após o período inicial de colonização, a capital da Amazônia, assim como Belém – PA, teve no final do século XIX seu apogeu com o ciclo da borracha, com ele vieram também grandes investimentos, “a cidade ganhou o serviço de transporte coletivo de bondes elétricos, telefonia, eletricidade e água encanada, além de um porto flutuante, que passou a receber navios dos mais variados calados e de diversas bandeiras. (fonte: http://wikipedia.org data: 26/10/2010)

O auge do ciclo econômico em Manaus a colocou em um patamar privilegiado no panorama nacional, equivalente ao Rio de Janeiro, a então capital federal. Edifícios como o teatro amazonas simbolizavam o seu potencial para o mundo. Acompanhado dele, surge a primeira universidade do Brasil e também a implementação dos bondes elétricos, sendo a segunda cidade a fazer tal investimento. Com o rápido fim da era da borracha no Amazonas, Manaus entra em decadência rapidamente e somente em 1960, com a implantação da zona franca, que ela volta a se reerguer e ocupa espaço importante na economia brasileira.

Dias em Manaus

Meus dias em Manaus se resumiram em muito trabalho, o site estava bastante desatualizado e definitivamente eu precisava parar para trabalhar. Tudo isso se deu graças a hospitalidade de João Paulo Martins, definitivamente sem a ajuda dele não seria fácil, em sua casa eu encontrei um ambiente que inspirasse produção, basicamente acordava e dormia na frente do computador.

Houveram também outras pessoas importantes nos dias que passei em Manaus, Kayo, também cicloturista, me recebeu em sua casa por alguns dias e me passou todo o roteiro da BR-174, ele pode ser considerado um expert nesse trajeto, já fez 3 viagens pelo Amazonas e Roraima. Era o meu próximo pedal, desbravando a floresta amazônica e sua transição para o lavrado.

Em Manaus existe um grupo que está lutando para que sejam feito investimentos focados no uso da bicicleta como meio de transporte, é o Pedala Manaus, organizador da pedalada ambiental. Frente a ele está o Ricardo Braga, ou como prefere ser chamado, o Saci. Um dia, estávamos conversando e decidimos fazer o I Desafio Intermodal Manaus(assista o vídeo), aproveitando o gancho da Semana de Meio Ambiente, infelizmente não tivemos o apoio da mídia devido a copa do mundo, a programação era exclusivamente sobre futebol e mais uma vez a bicicleta ficou para segundo plano. Apesar de tudo, não impediu que realizássemos e produzíssemos o registro desse grande momento.

Foram pouco mais de dois meses em Manaus, a cidade, na minha opinião, é um caos, mas existem belos lugares para visitar dentre eles o Teatro Amazonas juntamente com o largo São Sebastião lugar que originou a paginação de piso em pedra portuguesa representando o encontro dos rios, Negro e Amazonas, porém foi conhecido e consagrado pelo calçadão de Copacabana. Não deve deixar de ir também ao Bosque da Ciência – INPA, Museu do Seringal – Vila Paraíso, Jardim Botânico, centro da cidade e cidades vizinhas como Novo Airão.

Para saber da programação cultural de Manaus aqui segue algumas dicas de sites.

http://www.bv.am.gov.br/
http://www.culturamazonas.am.gov.br/
http://portalamazonia.globo.com/
http://www.manaus.am.gov.br/
http://portalamazonia.globo.com/
http://www.manausmais.com.br/

O Caminho de Manaus

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02/06/2010 – Quarta-feira, dia da partida de Santarém em busca de mais um estado brasileiro, o décimo, Amazonas, o qual possui a maior parte da floresta amazônica, é dele grande parte da origem do nome Amazônia, uma palavra que o coração pulsa forte ao ouvir-la.

Sem nenhuma noção palpável do que me esperava, seguia lentamente contra a corrente do rio amazonas à Manaus, com um detalhe diferente do trecho Belém – Santarém, o barco que viajava era muito menor e a tripulação parecia triplicada, as redes se intercalavam surpreendentemente, lado a lado formavam uma bonita composição de cores e formas que racionalizavam e aproveitavam ao máximo o espaço – à noite quando todos estavam deitados pareciam mais casulos de lagartas – mover-se bruscamente é perigoso devido ao risco de chutar a cabeça do vizinho e vice-versa.

Ao contrário do dia e do que pensava a noite é fria – da floresta saem ventos frios que gelam a madrugada, sem saco de dormir, o que me salvava era o edredom que carregava comigo, no entanto abaixo de mim, não havia qualquer proteção e os ventos gélidos desconfortavam um tanto à noite – pior ainda era quando as necessidades fisiológicas surgiam, sair da rede além de ser trabalhoso significava abandonar o aconchego caliente do edredom, descer e subir escadas, tarefa difícil.

AmbulantesAssim como o primeiro trecho, a viagem é encantadora, as belezas da floresta surpreendem por sua magnitude, os tons de verdes são infinitos e precisam de atenção para diferenciá-los – o único problema é falta de consciência dos passageiros, mesmo com a grande quantidade de lixeiros pelo barco as pessoas ainda jogam seu lixo no chão, da noite para o dia o barco vira um verdadeiro lixão – pior ainda é quando o lixo é atirado barco afora, destaque para os copos descartáveis, são os principais, me pergunto o que custa “adotar” um copo por toda a viagem – os hábitos são hereditários, crianças e adolescentes seguem os (não) princípios dos pais – em um dos dias da viagem, estava fotografando e também observando um garoto de seus 15 anos tomando refrigerante, já havia flagrado ele jogando copos no rio e esperava que não o fizesse novamente, ilusão a minha, assim que ele arremessa o copo no rio impulsivamente eu dou uma bronca nele, envergonhado o menino abaixa a cabeça e vai pro seu canto se esconder, espero que sirva de lição e nunca mais volte a fazer isso, as cidades e a natureza agradece.

Na viagem eu pude passar pela cidade de Parintins, onde acontece no último fim de semana de Junho o Festival Folclórico de Parintins, uma festa cultural do estado do Amazonas – a beleza dele se dá pela peculiaridade do ritmo chamado de toada acompanhado pelas letras das músicas, que remetem a cultura amazonense, mitos e cultura indígena – além disso a paixão que os amazonenses tem pelo evento é de se encantar e nos dá orgulho de ser brasileiro.

Após dois dias e meio de viagem, Manaus dá as boas vindas, o encontro dos rios Amazonas e Negro anuncia a chegada, outra coisa que não esperava também despertava a atenção e  alerta, uma fumaça cinza acima da cidade, me lembra o céu poluído de São Paulo e outras grandes cidades – havia me iludido pelo nome Amazônia, definitivamente ela não impede que Manaus seja poluída. Desembarcado sigo para casa de Isadora e sua mãe Ivanilde que irão me receber nesses primeiros dias na capital do amazonas.

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Bem Vindo Amazônia

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22/05/2010 – Batizada com o mesmo nome de uma cidade de Portugal, Santarém do Pará é também conhecida como a “Pérola do Tapajó”, pequena e simpática foi também palco do ciclo da borracha e é a segunda maior cidade do estado. Sua estrutura me assustou um pouco pelo número de motocicletas existentes, a cidade é movida por duas rodas motorizadas, com um número de mulheres bastante expressivo na direção, progresso? Até onde?

Santarém se deve especialmente por uma pessoa, Juliane, integrante do dez por horas, foi quem me ofereceu suporte e um calor familiar, sua mãe Julia, irmão Carlinhos e seu pai João me abraçaram e confortaram a minha saudade de casa, são momentos essenciais na minha vida nômade. Existem também duas pessoas que não pode esquecer, Eliene e Endriny, cunhada e sobrinha de Juliane, foram figuras de muitas risadas e brincadeiras especialmente pela ilustre Endriny e sua fase dos “porquês” que me lembra minha sobrinha que cada dia cresce mais.

Depois de alguns dias segui para a famosa Alter do Chão, conhecida como o “caribe brasileiro”, todos me falavam que deveria conhecer, o mais engraçado foi acostumar com a idéia de “praia” – como assim? Não é um rio? – Sim, praia de rio! – pra mim, praia é de água salgada e geralmente tem onda. – as diferenças culturais vão se tornando cada vez mais forte.

Na estrada, a 5km de Alter do chão, paro para observar uma aula bem diferente e em um ambiente inusitado, do qual não estou acostumado, no meio da floresta e embaixo de uma palhoça, posteriormente fiquei sabendo que ali funciona a escola da selva onde é dada aulas de conscientização do meio ambiente. Enquanto observava e escutava atentamente as palavras do professor, um ciclo viajante vem subindo a ladeira e se aproximando, era o Flipper – aparentando ter mais de 40 anos, tinha sua pele bastante queimada do sol e não parecia se preocupar ou se proteger dele, sua bicicleta marrom da cor do barro e ferrugem que a encobria parecia muito mal tratada e não via a um bom tempo uma revisão, mas uma coisa era certa e evidente, o Flipper encontrou na bicicleta a liberdade e felicidade, além de não parecer que ia parar tão cedo de viajar sobre duas rodas, ele me contou que estava viajando a 6 anos já e conhecia boa parte do Brasil e alguns países da América do sul, nos despedimos e aprendo a lição de força de vontade de um guerreiro.

Logo que cheguei, fui direto para a praia, de rio, ficar flutuando no tapajós enquanto dava a hora de fazer o bate papo com a criançada do ponto de cultura, uma escola muito legal que ensina muito para as crianças sobre meio ambiente e a sua preservação, afinal de contas a região é extremamente propícia, a rica Amazônia sofre constantemente com o desmatamento e exploração insustentável de seus recursos.

A pequena cidade de Alter do Chão é muito simpática, bastante simples, de pessoas acolhedoras e com uma beleza natural exuberante, tendo o rio tapajós como o seu principal protagonista – a bacia de rio da a forma sinuosa da paisagem e torna as águas calmas, refletindo em sua superfície a beleza da natureza – os pequenos barcos de pescadores compões não só a cultura local mas refletem a simplicidade de viver do rio – o calçadão com os desenhos do muiraquitã remetem a cultura amazônica, dos nossos índios, este é um símbolo do Amazonas, sentir esses lugares é sentir um Brasil diferente de tudo, uma cultura riquíssima que da aquela inveja boa!

“Conforme o livro Macunaíma, de Mário de Andrade, as índias icamiabas, mulheres guerreiras que habitavam o baixo Amazonas, ofertavam o muiraquitã aos índios da tribo mais próxima, os guacaris, depois do acasalamento, na Festa de Iaci, divindade-mãe do muiraquitã. A mística do presente oferecido aos índios visava a encorajar a fidelidade a elas e para que, ao exibirem-no, fossem respeitados, pois presentear um índio com um muiraquitã representava o ato sexual consumado entre uma Icamiaba e um índio. As icamiabas compunham uma sociedade rigorosamente matriarcal e se dessa união nascessem filhos masculinos, estes seriam sacrificados, deixando sobreviver somente os de sexo feminino.” (fonte: pt.wikipedia.org/ data: 20/09/2010)

No dia seguinte parti para a cidade de Belterra, por uma estrada de terra a pouco mais de 30km de Alter do chão, uma das cidades berço da era da borracha, localizada em “… uma planície elevada às margens do Rio Tapajós, coberta por densa floresta. A essa área a companhia Ford chamou de ‘Bela Terra’, que depois passou a ser chamada de ‘Belterra’. A partir daí, o projeto começava a se tornar realidade, e Belterra ficou conhecida como “a cidade americana no coração da Amazônia”.” (fonte: pt.wikipedia.org/ data: 20/09/2010)

A cidade é literalmente uma viagem em uma cultura completamente diferente do Brasil, muito charmosa e cheia de história – de fato parece uma viagem em um antigo filme americano, com as ruas de pedra, casas de madeira e a típica varanda frontal, e até hidrantes na calçada existe. Quem me guiou na cidade foi Mônica e a criançada do Telecentro, o passeio não poderia ser em outro veículo, fomos todos de bicicleta pela cidade, pedalando, brincando, contando histórias e aprendendo uns com os outros.

No dia seguinte tive que retornar para Alter do chão e depois para Santarém, e infelizmente não consegui chegar até a flona do Tapajós para conhecer as gigantes sumaúmas, uma árvore de tronco largo e que pode chegar até 70 metros de altura, a maior ou uma das maiores da nossa flora, esse é um passeio que definitivamente deve-se fazer.  De volta a Santarém fico mais uns dias e depois sigo para Manaus, novamente de Barco – esses dias foram de muito aprendizado sobre a natureza, história do Brasil e o ciclo da borracha e seus os impactos humanos.

Navegando pelo Amazonas

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19/05/2010 – Depois da trilha do mangustão ainda tive pouco mais de duas semanas na bela Belém, nesse período fiquei na casa de Ivan Lopes, um irmão e grande amigo que ganhei no Pará, um cara simples e de coração gigante, fico muito agradecido por sua companhia e hospitalidade. Além dele ganhei mais dois casais como amigos, Gustavo e Gabi e Romero e Jô, me proporcionaram noites de muitas risadas, jogando Wii, saindo a noite para conhecer Belém, tudo isso só dificultou ainda mais a minha partida da cidade, eu me apego muito fácil as pessoas e nas despedidas sempre ficam o sentimento de saudade.

Belém foi uma explosão de encontro de boas pessoas, uma cidade em que guardo um carinho enorme e ótimas lembranças sou eternamente grato a Ivan Lopes, Romero, Jô, Gustavo, Gabi, Fábio Talui, Elisa, Murillo, Sérgio, Leon, Suzanne, Carol, Marquinhos, João, Carlinhos, Guilherme, Aninha, Paulinha, Velasco, Gabriel, Cidália, Cidalinha e toda a galera “pai d’égua” do Couch Surfing que conheci.

Era chegada a hora do embarque, com a passagem comprada a poucos dias atrás com um cambista tive a maior dor de cabeça e quase que não consigo embarcar, o bilhete que havia comprado não era para aquele porto e não tinha mais tempo para ir até o outro, já estava em cima da hora, além de que me falaram que a estrada até lá era perigosa. Liguei para o infeliz e ele já não estava mais nas docas, um outro cambista veio falar comigo, ofereci então R$ 20,00 para ele fazer a troca da passagem, já que no guichê não tinha essa possibilidade, a passagem para Santarém no final me custou R$ 120,00 e um aprendizado, nunca compre bilhete com cambista, as vezes você quer ajudar mas só vai ter raiva com tanta desonestidade.

Passada toda a agonia do embarque no navio agora era só relaxar em minha rede e assistir o rio passar na companhia do “Pelos Caminhos de Nuestra América” – livro do Rafael Limaverde, desde Fortaleza que venho carregando ele e não conseguia terminar de ler, mas finalmente esse era o momento perfeito, meus segundo seriam exclusivos para leitura e reflexão da viagem, já são 9 meses fora de casa em uma viagem de bicicleta. A cada página que vou lendo do livro de Rafael consigo me ver em diversos momentos, a cada palavra percebo como pensamos de forma semelhante a respeito de uma viagem de bicicleta.

Viagem dos Sentidos

A bicicleta te dá a possibilidade  de sentir um local mais do que qualquer outro tipo de transporte. Cada local tem um perfume, cheiro de fumo brabo, às vezes a farinha torrando. Algumas vezes é catinga de carniça, outra é o perfume das senhoras na parada de ônibus indo pra missa. Sentir os cheiros do Mundo.

O silencio da bicicleta faz também você ouvir os sons da natureza, das maquinas agrícolas, do choro do menino, das risadas e dos murmurinhos.

O olhar também é mágico. Os 14 segundos  que você passa pedalando pela frente de uma casa à beira da estrada já te dá uma idéia de como eles vivem. Como as constroem, como cozinham,  o que fazem, como trabalham e como descansam. Como as crianças brincam, as brigas, os amores… A pouca velocidade faz você perceber todos esses detalhes e melhor é que não interfere na sua rotina a não ser aqueles poucos segundos que eles param para te olhar. Na verdade, viajar de bicicleta é uma troca de “perceberes”. (Rafael Limaverde)

Dessa forma vão passando as horas, as vezes lendo, as vezes fotografando ou observando as pequenas vilas ribeirinhas de onde saem crianças e mulheres em pequenas canoas e barcos pedindo doação às pessoas – me pergunto sobre o que eles realmente precisam e não consigo achar uma resposta, fato é que é triste ver várias crianças pedindo enquanto na verdade deveriam estar brincando ou estudando – a outra situação são das crianças em uma pequena canoa, remando em sincronia e rapidamente na direção do navio para vender as frutas, são os ambulantes ribeirinhos – quando chegam próximo a lateral, com muita destreza lançam um gancho ao pneu de proteção do navio atracando-se, mais parecem boiadeiros, a velocidade do navio exige uma grande habilidade para evitar a perda do controle da canoa, enquanto um controla a direção dela o outro aos poucos puxa a corda para ancorar-se ao navio, tudo acontece muito rápido, feito isso eles colocam os baldes na cabeça e saem vendendo frutas diversas e camarão seco – deve ter cuidado também com os furtos, qualquer vacilo eles atiram-se junto com as mochilas rio abaixo restando somente a roupa do corpo pois provavelmente o barco não fará nada para recuperar os pertences.

      

A viagem é muito gostosa e poderia ser melhor se o barco tivesse maior qualidade, o sol na Amazônia não alivia e próximo do meio dia o calor é intenso, mesmo na sombra, fato é que o barco não possui nenhuma proteção, esquentando a lataria dele transmitindo o calor para dentro dos ambientes – banho de hora em hora, chego a tomar 6 banhos por dia para aliviar o calor – a comida é extremamente limitada, variedade não existe a opção é uma só – a trilha sonora na verdade é uma tortura aos ouvidos – uma pena esse serviço ser de mal qualidade, pois poderia ser uma forte vertente para o turismo e geração de emprego e renda – o navio que estava a bordo se chamava Rondônia.

Penúltimo dia de viagem, era uma tarde muito quente, eu estava a fotografar as belas paisagens do amazonas quando ouso um grito de socorro dentro do barco, olho para trás, um senhor com seus 81 anos estava desacordado e sua filha desesperada pedia ajuda, corro para tentar ajudar, por 10 segundos me sinto completamente incapaz de fazer alguma coisa, não movia um músculo até quando percebi que tinha que retira-lo para um lugar mais arejado, eu e mais 3 rapazes conseguimos mudá-lo de espaço ele re-acordou e então levamos ele para a enfermaria, infelizmente o Sr. Francisco não resistiu, o barco não possuía os equipamentos necessários para primeiros socorros como também não haviam pessoas capazes da fazer um atendimento de emergência, a única enfermeira presente estava mais perdida do que todo mundo, definitivamente uma fatalidade que poderia ter sido evitada caso o proprietário do navio tivesse o mínimo respeito pelos seus clientes e as fiscalização cobrasse deles.

Chego a Santarém com um sentimento estranho, de questionamento, pensando no sentido da vida, como as vezes deixamos escapá-la e/ou perdemos tempo com coisas supérfluas, guardando rancores antigos e não perdoando aqueles de qual gostamos e temos certa afinidade. A vida é pra ser vivida de forma que nos faça feliz, ajudando sempre o próximo com solidariedade e humildade, respeitando o meio em que vivemos garantindo a sustentabilidade seja ela qual for.

Veja o album completo da viagem aqui.

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