Na Estrada #1

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Category : Diário

Caros seguidores, o site entrará em pausa agora pelos próximos 10 dias. Nesta segunda-feira, dia 19 de julho, sigo em direção a Boa Vista. Serão aproximadamente 740km pedalando pela Floresta Amazônica com transição para o cerrado nas proximidades do estado de Roraima.


Teatro Amazonas

Saindo de Manaus farei uma parada em Presidente Figueiredo para conhecer as famosas cachoeiras e trilhas da região, a Pousada Nossa Casa irá me receber por lá. Após esses dias sigo em direção ao portão de entrada da reserva Waimiri-Atroari, onde é proibida a circulação pela noite. O terceiro dia inteiro será cruzando toda a reserva, por volta de 126km, dentro dela tem a divisa do estado do Amazonas e Roraima, a parada será em Jundiá. No quarto dia cruzarei a linha do equador, entrando no hemisfério norte pela primeira vez, tentarei chegar até Rorainópolis, uma pedalada puxada de 160km. Quinto dia tentarei chegar o mais próximo da cidade de Caracaraí uma distância de aproximados 155km. Sexto dia pararei em Mucajaí e a depender da animação posso esticar para Boa Vista, mas pretendo fazer esse roteiro em 7 dias para não forçar demais.

Dessa vez a preparação está bem maior no quesito alimento, me preparei bastante e carrego um pouco mais de peso por conta disso, nada que atrapalhe demais. O meu único medo é que minha suspensão não agüente a viagem, ela está com problemas e é a maior preocupação.

Aguarde que em breve terá atualizações com os relatos de Belém, com as trilhas que fiz no Pará com o pessoal da EART e loja Top Bike Belém, tem também a viagem e os dias que passei em Santarém, Alter do Chão e Belterra, Manaus e esta viagem pela Amazônia.

Bem Vindo ao Pará

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Category : Diário

21/04/2010 – Dormir na escola foi tudo de bom, deu pra tomar banho de “tcheco” ou também conhecido como banho de cuia e ainda com direito a jantar e café da manhã, perfeito, melhor que isso não poderia ser – como forma de agradecimento fizemos uma doação à escola para ajudar nas despesas, fico na torcida para que as aulas voltem logo e as crianças a estudarem.

O planejamento do roteiro de hoje é chegar até Santa Helena, uma cidade ainda no estado Maranhão e mais desenvolvida que as demais, ir na rodoviária e pegar um ônibus até a Capanema, isso porque a partir de São Luis começam as chamadas entranhas maranhenses, com a presença de vários rios desaguando no mar, isso impede a existência de estradas litorâneas, havendo somente a BR 316 que liga São Luis a Belém, conseqüentemente o movimento de caminhões é intenso, e para piorar a situação do ciclista, não existe acostamento. Roteiros como esse eu começo a abrir mão, pois são regiões vetores de crescimento com devastação da floresta e não possui nenhum atrativo, não vale a pena correr o risco, e ainda ficar sujeito a poluição, barulho e stress da atenção no movimento de automóveis, fica a dica para você que pretende fazer uma cicloviagem.

Antes chegar a Santa Helena paramos na cidade Pinheiros, a 60km de onde dormimos, lá possui rodoviária e então decidimos ficar por lá. É muito legal passar por essas cidades do interior e ver a simplicidade da comunidade, ver as pessoas sentadas na porta de suas casas, passando o tempo, conversando, as crianças jogando bola na rua, mesmo debaixo de uma chuva que caia ao final de tarde – na cidade grande só é visto esse comportamento na periferia ou em bairros com uma população de maior faixa etária. Nas áreas mais centrais existe uma exclusão dos espaços públicos, as mães não deixam seus filhos brincar nas ruas, os automóveis na maioria das vezes são os vilões, pelo risco de acidentes. Aliado a esse fato entra a falta de investimento em praças, bosques e parques que provoca um aumento da procura pelos espaços privados, como shoppings.

Manhã do dia seguinte, as 8:00h saía o ônibus para Capanema, entrando no Pará, na região Norte do país e se despedindo do Nordeste. Na hora do embarque tivemos o maior problema para despachar as bicicletas, o funcionário da empresa causou a maior confusão dizendo que tínhamos que pagar, Argus tinha um cartão da federação de ciclismo de São Paulo que falava que o transporte de bicicleta não pode ser cobrado, como eu não tinha tal cartão, o carinha mudou o discurso e disse que eu tinha que pagar, sei que enchemos o saco dele e não pagamos – o ônibus era uma lata velha, sem ar condicionado e bancos velhos. A viagem durou em torno de 5 horas, no maior calor.

Assim que chegamos em Capanema – PA pedalamos em direção a cidade de Primavera, no site de Argus possui um espaço para cadastramento de escolas, um rapaz chamado Evandro, que conhecia seu projeto, havia cadastrado a escola em qual trabalha, portanto seguimos juntos até lá para fazer a atividade. O paraense é muito receptivo, de uma hospitalidade tamanha, já foi possível perceber logo em Capanema, muitas pessoas se aproximaram de nós para conversar e outros nos carros andavam devagar para fazer as clássicas perguntas foi muito bom sentir essa recepção.

O estado de Pará já predomina a floresta amazônica, portanto essa região o desmatamento é muito grande e desde a fronteira já percebe a predominância da madeira, principalmente nas construções, a tipologia construtiva das casas são na maioria com essa matéria prima. É comum ver madeireiras na beira da estrada, e praticamente todas as cidades possuem esse tipo de construção, ou seja, devastação total e como era de se esperar a pedalada não teria paisagem alguma. O mais interessante é que muitas dessas áreas desmatadas são utilizadas pela desculpa da pecuária, mas ao olhar o numero de animais no pasto é irrelevante, tudo não se passa de pretexto para derrubar as árvores e vender a madeira.

Chegamos em Primavera e fomos direto para escolinha, estávamos 30 min atrasados, mas felizmente conseguimos chegar a tempo, antes da saída das crianças, foi mais uma sensação indescritível, eram inúmeras crianças, curiosas, vendo aqueles dois malucos ou até mesmo, na cabeça deles, dois super heróis de bicicleta, ao final da atividade tirando foto com todos, um garotinho chega do meu lado e pede um autógrafo, aquilo foi uma surpresa pra mim, até então eu não tinha idéia que o significado para eles era tão grande, ao ponto de pedir uma assinatura minha, um pobre mortal que tem o sonho de dar a volta no mundo de bicicleta, e depois dele todos queriam autógrafos, foram alguns minutos escrevendo mensagens para a criançada, recepção melhor que essa impossível, foi ótimo, o sinal que Quimbó, meu mascote louva-a-deus trouxe se tornara realidade e mais fantástico é que ele ainda estava comigo já era o terceiro dia me acompanhando.

Alcântara, outro Mergulho na História Colonial

Category : Diário

20/04/2010 – Terça feira, partida de São Luis, a melhor rota para seguir para Belém é através da pequena cidade de Alcântara, é preciso pegar um barco de 3 horas de viagem que custa R$ 20,00, como era de ser esperar, mais uma vez tentaram me cobrar o transporte da Carmélia, negociação e tudo limpo, pude economizar alguns trocados. A viagem é legal, da para ter uma bela vista da cidade de São Luis e passa bem rápido com sorte você conseguirá ver também alguns botos nadando no rio.

A cidade de Alcântara foi refúgio de muitos escravos quilombolas, cidade histórica, faz parte do roteiro turístico de São Luis – com arquitetura completamente colonial, casas geminadas com o tradicional desenho na fachada de janelas, portas e as cores dando a identidade de cada morador. Possui uma praça central que abriga a bela ruína de uma igreja “Erguida antes de 1648 no local onde já havia existido uma capela construída pelo índio Maretin e uma igreja em homenagem a São Bartolomeu. Na virada do séc. XIX para o séc. XX já estava em ruínas e ameaçava desabar. Parte da igreja teria sido derrubada por ordem do escritor Sousândrade, que morava num casarão na praça e tinha sua vista da pasaigem atrapalhada pela torre.” (fonte: www.cidadeshistoricas.art.br data: 13/07/2010)



“Muitas são as causas apontadas para o declínio econômico em que Alcântara mergulhou no final do séc. XIX, para nunca mais se recuperar: abolição da escravatura, evolução de técnicas agrícolas, exploração excessiva do solo, recuperação do cultivo de algodão nos EUA após a Guerra de Secessão, fim da Companhia Geral de Comércio, lutas pela Indepêndencia do Brasil, maior facilidade no transporte da produção de outras áreas do país. Em 1896 a população se reduz a 4.000 habitantes, a Igreja Matriz está fechada e as plantações de algodão quase não existem mais.

As áreas das fazendas foram ocupadas pelos ex-escravos, que deram origem a muitos povoados ainda hoje existentes. O patrimônio histórico da cidade sofreu inúmeras baixas, desde o roubo de peças das casas por colecionares e moradores até confisco de peças da igreja pelo governo federal em 1889. Estes saques, aliados a um total descaso pelas construções, significaram a decadência definitiva para a memória de Alcântara.
O conjunto de sobrados que sobreviveram ao descaso e ao tempo, alguns com paredes de pedra e cal e ainda com fachadas revestidas por azulejos portugueses, foram tombadas pelo Iphan em 1948 como Patrimônio Nacional.” (fonte: www.cidadeshistoricas.art.br data: 13/07/2010)


Depois de conhecer a pequena cidade aproveitei também para passar no correio para enviar para meus pais uns postais que havia comprado, Argus também tinha que enviar uns documentos para sua casa. Após isso, seguimos para o almoço, já passara do meio dia, soubemos que na saída da cidade há dois restaurantes. Lá conheci um garoto chamado Igor, acredito ser parente da senhora que tomava conta do restaurante, perguntamos quantos anos ele tinha – 5 anos – ele nos responde, mas era perceptível que ele era mais velho do que afirmava, Argus pede então para ele mostrar nas mãos sua idade, ele mostra os 10 dedos e vimos que ele não sabia contar até dez, mais uma vez a questão da educação, nem preciso comentar mais nada, fato é que é deprimente ver coisas desse tipo.

Descansados do almoço seguimos para a estrada, eu estava mal com tudo que tinha acontecido, pareceu mais uma convenção de coisas erradas, estava no lugar errado na hora errada talvez, vai saber. Ao menos estava saindo daquele lugar, era a única coisa que passava na cabeça, a estrada é boa e extremamente bonita, uma mata fechada, a Amazônia já vem dando as boas vindas, como também as belas ararinhas, gritando feito loucas e sobrevoando nossas cabeças, isso me deixa muito feliz, em ver esses animais soltos, livre e talvez longe de ameaças, essa região do maranhão parece ser bem reservada, poucas pessoas passam por aqui, percebe-se isso por alguns trechos em que a mata praticamente invade a pista tomando de volta o que era dela.


Depois de algumas horas de viagem percebo que não estou sozinho, um louva-a-deus estava em cima da minha bolsa de guidão, passeando, curtindo, ele é um inseto considerado sagrado na cultura chinesa e segundo algumas crenças significa sorte, não poderia ficar mais feliz com aquele sinal, eram bons ventos surgindo, batizo-o então de Quimbó, devido a região em que me encontrava.

Cada vez mais que vou entrando na região algumas vilas vão surgindo, com a tipologia construtiva das casas de barro e a população praticamente negra. Quando ouvi falar dos quilombolas eu não tinha imaginado que era tão contrastante, parece que estou em outro país. A recepção da comunidade é sempre alegre e recíproca aos nossos cumprimentos, quase sempre nas casas que estão com o som ligado ouve-se o reggae music, muito bacana, um trajeto surpreendente do Brasil, nunca imaginara que havia um lugar assim.

As horas vão se passando e o dia chegando ao fim, era hora de começar a procurar algum lugar para passar a noite, em uma vila perguntamos qual era a cidade mais próxima e que tinha uma pousada, a informação era de que ficava a uns 40 km não conseguiríamos chegar lá antes do anoitecer, contudo seguimos adiante, pouco mais a frente em um trevo encontramos uma escolinha municipal, nem sempre é possível ser hospedado porque precisa da autorização do diretor, porém para nossa alegria a diretora estava morando na escolinha e trabalhando para que começasse a funcionar.